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‘Acerto do Copom foi indicar que ritmo vai se manter’, diz Le Grazie


"Sinalização deve evitar avanço de apostas em cortes maiores" Reinaldo Le Grazie para o Valor Econômico - FInanças


Por Gabriel Roca — De São Paulo 03/08/2023 — Foto: Claudio Belli/Valor


Roberto Campos Neto teve o voto de Minerva no Copom e, caso tivesse optado por um corte de 0,25 ponto percentual, o placar seria ainda mais folgado por uma redução menor dos juros. Ainda assim, o sócio da Panamby Capital e ex-diretor do Banco Central Reinaldo Le Grazie avalia como um grande acerto do Copom o anúncio da manutenção do ritmo de cortes em 0,5 ponto para as próximas reuniões, o que tornou a comunicação do colegiado mais simples e, na ausência de fatos novos, deve evitar que o mercado eleve apostas em aceleração do ritmo de afrouxamento monetário.

Valor: A decisão de cortar 0,5 ponto é coerente com a comunicação recente de parcimônia do BC?

Reinaldo Le Grazie: Acredito que 0,25 ponto a mais ou a menos não muda muita coisa, diante da taxa Selic atual. Não desaparece a serenidade por causa disso. Quando eu estava lá [no BC] a gente dizia que ninguém briga por causa de 0,25 ponto. Olhando para o comunicado, acredito que o mesmo texto poderia justificar um corte de 0,25 ou de 0,50 ponto. Houve alguns cuidados em citar os núcleos de inflação elevados no exterior. Tive impressão que houve uma espécie de homenagem ao CMN [Conselho Monetário Nacional] em relação à queda das expectativas mais longas, já que a decisão de manter a meta foi importante para a ancoragem parcial das projeções que vimos. Por outro lado, também há alguns outros comentários que poderiam justificar uma leitura de queda mais lenta, como a desinflação mais lenta e com a ancoragem ainda parcial das expectativas.

Valor: Como o sr. avaliou a comunicação do Copom?

Le Grazie: Acredito que o grande acerto foi o comitê apontar que o ritmo vai se manter em 0,5 ponto percentual. Ele deixa claro que esse é o ritmo que vai vigorar daqui em diante e isso fez a comunicação ser mais fácil. Seria muito mais complicado cortar 0,25 ponto e anunciar que o que vai vigorar daqui em diante e isso fez a comunicação ser mais fácil. Seria muito mais complicado cortar 0,25 ponto e anunciar que o ritmo seria alterado na próxima reunião. Isso poderia tornar a comunicação mais difícil e até fazer o mercado se animar mais do que deveria. Acho que a comunicação ficou mais simples.


Valor: O sr. avalia que isso será suficiente para impedir que o mercado aposte em uma aceleração do ritmo?


Le Grazie: Imagino que o mercado deva ficar próximo de 0,5 ponto. Para o mercado acreditar que o BC vai acelerar para 0,75 ponto, precisaríamos de um fato novo que foge ao comunicado. A inflação vem caindo bem, mas deve parar de cair; no mundo inteiro, os núcleos estão elevados, e a atividade no Brasil está mais forte do que a gente imaginava. O mercado normalmente se anima quando a direção é para baixo, mas acho que seria apenas uma euforia. O ritmo deve ser mantido nas próximas reuniões. A mensagem é bastante forte.


Valor: Há críticas de que, com o corte de 0,5 ponto, o BC teria se desviado de sua comunicação recente.


Le Grazie: Quando há unanimidade, a potência da política monetária tende a ser mais forte. O sinal fica mais claro e a chance de ruídos por pequenas divergências diminui. A vantagem de a decisão ter sido dividida é que as divergências de opinião dentro do colegiado ficaram mais evidentes. E por que Campos Neto não buscou o consenso? Talvez, para buscar a unanimidade, a decisão precisaria ser de 0,25 ponto. Acho que fica claro que foi o presidente quem tomou a decisão. Ele foi o voto de Minerva e, se ele mudasse de lado, o corte teria sido de 0,25 ponto, e provavelmente por um placar mais folgado, já que poderia atrair o voto de outros membros do Copom junto com ele. Minha opinião é que a potência da política monetária é mais forte na unanimidade, mas, por alguma razão, o presidente preferiu não buscar. Deixou a divergência em aberto.

Valor: É possível inferir qual será o tamanho deste ciclo de cortes?


Le Grazie: Acho que, se o mercado reagir bem a esse ritmo de 0,5 ponto, é possível chegar perto dos 8,5% no fim de 2024. E ir devagar é importante para que você consiga fazer um ciclo mais longo. A desinflação no mundo hoje é mais lenta, e a atividade vem se mostrando mais forte no Brasil. Então, é o caso de fazer esse ciclo devagar, e isso é o que o ritmo de 0,5 ponto impõe.


Valor: Acha que a divergência no Copom pode atrapalhar a comunicação daqui em diante?


Le Grazie: Normalmente o Copom procura ser uníssono. Quando olhamos para o resto do mundo, no entanto, cada diretor acaba expondo mais a sua própria opinião e tudo bem. Talvez, cada vez mais, a gente esteja caminhando para essa direção. Não saberia dizer quais serão os impactos disso daqui em diante.


Valor: A Panamby alterou alguma projeção após a decisão?


Le Grazie: A gestora estava dividida entre o corte de 0,25 e 0,5 ponto percentual. As posições aplicadas [de aposta na queda das taxas] estavam mais concentradas nos juros longos do que nos curtos. No entanto, mantendo esse ritmo, a Selic terminaria este ano em 11,75%, em linha com o que vínhamos projetando. Portanto, nossas projeções não se alteraram.





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