MÍDIA NEWS

Crescimento - déjà vu, déjà fait


Mais uma vez, o cenário que se desenha é de bom desempenho econômico no primeiro trimestre e fraqueza nos trimestres adiante. A economia não consegue embalar; os impulsos positivos que surgem são exauridos pelo desarranjo macroeconômico doméstico. Permanece o quadro de crescimento baixo. No curto prazo, a demanda é determinante para o PIB e muitos são os fatores apontando risco de recessão: aperto das condições financeiras, desemprego, alto custo de vida, endividamento e piora das confianças. No médio e longo prazo, também não estão presentes fatores que assumem o protagonismo do crescimento como sistema educacional, taxa de poupança e a qualidade da política pública.


No início de 2021, as condições de liquidez externas e internas eram excepcionais e favoreceram o consumo doméstico e as exportações, mas o crescimento do PIB não se sustentou além do primeiro trimestre. Acredito que assim será neste ano. Desta vez, chama a atenção o desempenho das exportações, não só devido à alta dos preços internacionais. A quantidade exportada aumentou 18% comparando janeiro - fevereiro (pré-guerra) contra o mesmo período do ano passado, com efeitos diretos de aumento da renda. Soma-se a isso, o alívio nas condições financeiras causado pela entrada de capitais que atenuou o efeito contracionista da política monetária, e a expansão de gastos nas esferas federais, estaduais e municipais para aproveitar o período livre das restrições impostas pelo calendário eleitoral.


Surpreendendo o consenso que esperava um início de ano fraco, os modelos que monitoram a economia no curtíssimo prazo indicam que o crescimento no primeiro trimestre foi positivo. Estes monitores consideram algumas dezenas de variáveis entre indicadores setoriais, balança comercial, indicadores de crédito, renda, emprego e preços de ativos. Meu painel de dados estima que o crescimento do primeiro trimestre possa alcançar 0,8%, o que resulta em um efeito de carrego de 1% para o ano, bastante superior aos 0,3% estimados para o PIB de 2022 no começo de janeiro. Pode parecer que o jogo virou. Mas será que conseguiremos conservar os efeitos dos impulsos positivos, ou eles serão exauridos entre o segundo e o terceiro trimestres, como aconteceu em 2021?


Vivemos um processo disseminado de alta de preços que vai dos alimentos, combustíveis, habitação até serviços, o que impacta em cheio a capacidade de consumo das famílias. Assim, olhando para os próximos trimestres, temos a combinação de renda corroída pela inflação com o efeito cada vez mais significativo do aperto monetário via os canais do crédito e de expectativas. Afora isso, o endividamento segue crescente, em dezembro (última informação disponível) alcançou 27,9%, e deve ter crescido desde então com a continuidade da alta dos juros. O desemprego ainda é alto, na casa de 11%, com criação de vagas muito concentrada em prestação de serviços, que tem baixa capacidade de alavancar consumo devido à grande participação do trabalho informal, onde os salários são menores.


Um modelo simples de probabilidade sinaliza que as chances de contração econômica aumentaram desde dezembro do ano passado, alcançando 39% em março. Isto é, a probabilidade ainda não indica risco preponderante de recessão, mas que o momento econômico é delicado. Este exercício relaciona a variável binária, que assume valor 1 caso Brasil esteja em um período de recessão, de acordo com a determinação da CODACE, e 0, caso contrário, com as variáveis explicativas: índice de confiança empresarial (ICE - FGV), índice de condições financeiras e diferença entre taxa de juros de 5 anos e de 1 ano.


Avaliando o quadro de carestia, desemprego, endividamento, não há muito o que fazer em termos de política econômica que traga alívio no curto prazo. A inflação rodando a 12% restringe qualquer possibilidade de estímulo monetário. Os preços no atacado (IPA-DI) acumulam alta de 17,6% nos últimos 12 meses até março e sustentam a inflação de industriais acima de 10% há mais de 8 meses. Com isso, tem muito para acontecer em termos de realinhamento de preços entre tradables e serviços. Do lado da política fiscal, as medidas adotadas - antecipação do saque extraordinário do FGTS e do 13º salário para aposentados e pensionista, que injetam 1% do PIB (R$ 86,7 bilhões) a partir de abril - esgotam as principais ações que ainda poderiam ser tomadas neste ano.


São muitas as pressões de custos na economia, por isso infelizmente este quadro de possível contração econômica à frente não deve trazer alívio inflacionário tão cedo. Pior que este cenário de curto prazo é a conclusão que, sem perspectiva de reformas, a produtividade não tem como crescer e, com isso, o crescimento potencial. Só restando contar com choques favoráveis tanto no lado da atividade quanto no lado da inflação para sair deste imbróglio. Vale lembrar, dado os acontecimentos dos últimos anos, contar com a sorte não é muito aconselhável.


Tatiana Pinheiro, economista-chefe e sócia da Panamby Capital para o Broadcast+