MÍDIA NEWS

Choque do petróleo e política econômica: 1973, 1979 e 2022

Para além das questões humanitárias da guerra na Ucrânia, o mercado e formuladores de política econômica se deparam com a preocupação dos efeitos econômicos da guerra. São imediatos os questionamentos sobre as pressões dos preços do petróleo e do gás natural, dado o peso da Rússia como um dos maiores produtores nestes mercados. Quais os desdobramentos para as economias avançadas e emergentes? O que pesará mais no balanço de riscos da política monetária: a pressão inflacionária ou a redução do crescimento?


Quando as elasticidades-preço da demanda e da oferta são baixas, ou seja, a produção e a demanda do bem são pouco sensíveis à variação do preço, distúrbios em ambos os lados resultam em flutuações de preços acentuadas. Este é o caso do mercado de combustíveis com o petróleo. No passado, distúrbios de demanda e de abastecimento promoveram grandes oscilações nos preços e suscitaram questões sobre a segurança energética, a liderança e cooperação mundial e a condução de política econômica. Não será diferente agora, apesar da diversificação da matriz energética ocorrida nos últimos anos.


Por enquanto, considerando o preço do barril do petróleo entre US$ 120 e US$ 150, o consenso de mercado estima entre 1 p.p. e 3 p.p de aumento da inflação dos Estados Unidos e da zona do euro e o custo em termos de atividade entre 1,4 p.p. e 2 p.p. no crescimento mundial. Este dilema entre inflação e crescimento deve pesar sobre a reação dos formuladores de política ao cenário de guerra.


O que a história conta sobre a reação da economia global a choques semelhantes no preço do petróleo? Vamos tomar como exemplo as duas grandes crises de 1973 e 1979. Antes de tudo, temos que destacar uma diferença crucial entre o choque de agora e o dos anos 1970s: a maior parte das economias têm hoje câmbio flutuante, enquanto na crise do petróleo dos anos 1970s se seguiu ao fim do padrão ouro-dólar. A flutuação do câmbio torna eventuais ajustes no balanço de pagamentos menos custosos em termos de crescimento, mas potencializa o efeito inflacionário.


Mesmo assim, os choques em 1973 e 1979 ainda são válidos para parametrizar nossas expectativas quanto à condução de política econômica. O primeiro choque, devido ao embargo dos membros árabes da Opep no embarque de petróleo para os países que apoiavam Israel no conflito com o Egito e Síria, resultou na queda em torno de 9,8% do abastecimento mundial e na alta do preço do barril do WTI de US$ 4,31 em outubro de 1973 para US$ 10,11 (+135%) em janeiro de 1974. As consequências econômicas foram duras: desaceleração de 4 p.p. do crescimento mundial e aceleração de 6,7 p.p. da inflação mundial no intervalo de 1 ano após o embargo, segundo o FMI. Sem contar os desequilíbrios nos balanços de pagamentos nos vários países importadores de petróleo.


A segunda crise, causada pela ruptura na produção iraniana e pelo corte na produção da Arábia Saudita entre final de no final de 1978 e início de 1979, também elevou o preço do barril do WTI de U$ 14,85 em dezembro de 1978 para US$ 32,5 em dezembro de 1979 (+ 119%). O crescimento da economia mundial desacelerou quase 2 p.p., enquanto a inflação acelerou 5,3 p.p. também em um ano a partir do evento.


Apesar da relutância do Fomc em responder com juros a um choque de oferta, a taxa básica foi ajustada nesses dois momentos. A taxa de juros básica dos EUA subiu de 9% no final de 1973 para 13% até maio de 1974 e de 10% no final de 1978 para 15,5% em outubro de 1979. Mas as respostas de política econômica não se limitaram à alta de juros. Nos EUA, houve controle dos preços domésticos do petróleo - iniciado pelo governo Nixon antes mesmo do choque do petróleo, como política anti-inflacionária, e mantido até abril 1979. Diversos governos - EUA, França, Japão e Alemanha Ocidental entre eles - investiram em diversificação energética, com mais sucesso em alguns casos (como o da França) e menos em outros (como os EUA).


A situação atual não parece diferente: a pressão inflacionária reforça o aperto monetário, ainda mais considerando que a flutuação do câmbio desloca o balanço de riscos mais para inflação e menos para o crescimento. Podemos esperar também pressão por políticas de subsídios fiscais no mundo.


Esse último ponto lança preocupação sobre o desequilíbrio fiscal brasileiro. Muitas eram as propostas de subsídios/desonerações para os preços dos combustíveis e de outros produtos industriais antes dessa crise geopolítica. Agora, a pressão para aprová-las deve aumentar. Sabemos o piso do custo fiscal destas propostas, em torno de R$ 100 bilhões; já os benefícios em termos de inflação e crescimento econômico no longo prazo são bastante imprecisos. Muito pode acontecer nos dez dias que faltam para a reunião do Copom, mas tanto o choque da guerra em si como a possibilidade de respostas fiscais sugerem que o viés para os juros, também aqui, é para cima.


Tatiana Pinheiro é economista-chefe e sócia da Panamby Capital e escreve artigos para o Broadcast